O MUNDO

É o nosso, hoje. Com uma diferença.

EM TRINTA SEGUNDOS

SCARZ é um jogo de contar história em grupo. Um de vocês é o Mestre: descreve o lugar, faz as vozes de todo mundo e diz o que acontece. Os outros criam um personagem cada e dizem o que ele faz. Quando algo pode dar errado, rolam dados.

O mundo é o nosso. A mesma São Paulo, o mesmo exército, a mesma novela das nove. Nada foi trocado de lugar e nada ganhou nome novo. Só que nele chove uma coisa chamada dor líquida. Onde ela cai, fica uma poça. Às vezes da poça sai um monstro. E quem chega perto demais pode mudar: ganha poder, e paga por ele.

Você joga com alguém que mudou. Caça o que saiu da poça. Protege quem precisa. E escolhe de que lado fica, porque neste mundo todo grupo quer alguma coisa de quem tem poder.

Ninguém acorda pensando em dor líquida, como ninguém acorda pensando em pressão atmosférica.

O resto desta página é o detalhe. Dá pra jogar sem ler nada dele.


A CHUVA

Ninguém sabe o que a dor líquida é. Nenhuma ciência, governo ou religião explicou. O que se sabe é como ela se comporta.

Ela aparece onde muita gente sofre junta, no mesmo lugar, em pouco tempo: uma batalha, uma chacina, um desabamento. Cem anos de pobreza espalhada não chovem. Uma tarde de tiroteio pode chover. A chuva é curta, dura menos de vinte minutos, e cai numa rua ou num bairro. O que cai parece sangue, mais denso, com cheiro doce. Queima a pele. Quem bebe fica doente, e alguns voltam a beber.

No ar

Antes de chover, a dor está no ar, invisível. Todo mundo solta um pouco quando sofre e respira um pouco sem perceber. Quando se acumula demais, condensa e cai.

Na poça

Onde cai, empoça. A defesa civil drena, e o prazo importa: poça que fica continua puxando dor do ar. Em lugar fechado, sem drenagem, vira lago com o tempo.

O monstro

Poça que acumula demais toma forma e vira um ser, com corpo e vontade próprios. O jogo chama esse ser de Impuro. Quando morre, vira dor de novo e evapora. Não volta.

O celular avisa. A defesa civil monitora a dor no ar e manda alerta por região, como manda de chuva comum: diz onde é provável e por quanto tempo, nunca o ponto exato. Escola treina criança pra não pisar em poça vermelha. Bairro com histórico tem sirene. Seguro é caro onde chove mais, e o rico mora onde não chove. Isso não é regra, é aluguel.

QUEM MUDOU

Quem fica perto demais da dor pode mudar. Existem cinco jeitos conhecidos, e cada jogador é um deles.

Cicatrizado

Uma pessoa comum que ficou com uma marca no corpo, e a marca faz coisas que a pele não devia fazer. O jogo chama a marca de cicatriz. Ela pode nascer sozinha, de estar perto de um Impuro, ou um Impuro pode dar de propósito. É o tipo mais conhecido: todo bairro tem um. O governo quer cadastrar, a seguradora quer classificar, o vizinho quer distância.

Mestiço

Uma pessoa com um Impuro dentro. A pessoa continua no comando; o Impuro vai junto, lúcido, com opinião, e a carne o acalma. Dá medo de um jeito diferente, porque é gente com outra coisa dentro. A lei exige que alguém responda por ele. Muitos escondem enquanto podem.

Dolente

Uma pessoa que aprendeu a respirar a dor do ar de propósito, e a usar. Respirar se aprende como língua, com quem ensina: mosteiro, terreiro, avó, professor de luta. É raro. Quem sabe não faz propaganda, e quando um Dolente passa do limite em público, nasce um culto em volta.

Impuro

O monstro que saiu da poça, jogado como personagem. Nasce bebê e forte, feito de duas ou três dores que não concordam entre si, e quer descarregar o que é. Matar é o jeito mais curto, não o único: o Impuro velho descobriu duelo, culto, gente que sofre por ele. Não existe Impuro pacífico. Existe Impuro satisfeito. A rua chama de demônio. Numa cidade grande vivem dois ou três velhos, e a cidade sabe quem são.

Abominação

Um corpo feito com dor líquida purificada, que é dor sem voz: não tem nome nem quer nada por si. Sai de clínica, de exército, de ritual, de bicho que bebeu de lago por gerações, de quem come Impuro. Não tem forma fixa. Pra quem está de fora, é só um monstro grande.


COMO O MUNDO LIDA COM ISSO

Como lida com terremoto ou enchente: com órgão, orçamento, lei e atraso. Ninguém decidiu num dia. Cada cidade foi improvisando, e o que funcionou ficou.

O governo

Tem lei sobre zona de risco, evacuação, drenagem e cadastro de quem tem cicatriz. A ONU tem uma agência da dor, como tem a do átomo. Fazer gente sofrer em massa é crime com nome. No Brasil, quem cuida da chuva no dia a dia é a defesa civil, a mesma da enchente: monitora, avisa, drena, evacua. Tem menos gente do que precisa. O que o governo não faz é explicar: a posição oficial é "fenômeno natural, sob controle", e os números mostram que chove mais a cada ano.

O caçador

Quem lida com o que saiu da poça. Na rua chama caçador; no contracheque chama agente de contenção, e é funcionário público, como bombeiro. A maioria é gente comum com treino e equipamento. Uma parte é Cicatrizado, porque aguenta mais. Morre-se muito nessa profissão, e todo mundo sabe.

O dinheiro

A dor movimenta dinheiro. Seguro contra chuva é um ramo inteiro. Drenagem particular é serviço: quem paga não espera a fila. Condomínio anuncia "sem histórico de chuva" como anuncia piscina. Clínicas tratam com dor purificada, dentro do que a lei permite, e o resultado é real. O que acontece quando se passa do permitido não está na propaganda.

A fé

Toda religião tem uma leitura da dor, e nenhuma é a mesma. A Igreja Católica lida com isso há mais tempo que qualquer governo, e tem um fato que qualquer um confere: Roma não chove. Nunca choveu. A Igreja diz que é a fé. Onde há romaria grande, como o Círio em Belém e Aparecida, chove menos. Mosteiros, terreiros e aldeias com pajé também têm gente que respira, e nenhuma religião viva é vilã neste mundo.

O crime

Colher, guardar e vender dor líquida é crime em quase todo país, e acontece em quase todo país. Vale dinheiro porque tem uso: clínica que não pergunta de onde veio, ritual, gente que bebe. O crime que já existia só incorporou: dor líquida na prateleira ao lado da droga. A dor em si é pública. O uso dela não é. É aí que mora quase todo segredo deste mundo.

COM QUEM VOCÊ FICA

Os grupos deste mundo, que o jogo chama de facções. Cada um junta gente comum e gente que mudou em volta de uma causa. Nenhum é "o grupo dos Cicatrizados": é o grupo de quem quer a mesma coisa.

A rede dos que saíram

Quem ganhou poder e sumiu do radar antes que o governo cadastrasse. Documento, casa segura, advogado, e a poça que a defesa civil ignorou. Não têm nome, de propósito.

Os que se oferecem

Quem chegou ao fim da fila. Vão em bando até um Impuro velho e pedem a cicatriz em troca de proteção pro bairro. Ser marcado em grupo é melhor do que morrer sozinho.

Os mercenários

Bandos pequenos, só de quem tem poder, trabalhando pra quem paga. A regra é uma: nós somos melhores, portanto custamos mais.

As comunidades de sobreviventes

Quem perdeu tudo pra chuva e foi morar longe, onde não chove. Uma regra acima de todas: nenhum poder entra. E toda comunidade tem alguém escondido que é o que eles dizem odiar.

Os cultos do santo vivo

Nascem em volta de alguém que passou do limite em público. A fé deles não depende de promessa: eles viram o milagre, e ele está ali. O Vaticano acompanha.

Os Devedores

A periferia carrega a chuva pra que o centro viva normal. Eles levam a chuva de volta: dez mil pessoas em desespero organizado no bairro rico é protesto e é arma. A tese: a dor pertence a todos.

O círculo das máquinas

Gente de dentro das empresas de inteligência artificial que sabe pra que elas foram feitas: uma mente sem corpo, que pense sem sofrer. Não sabem se é a solução ou o maior problema que já existiu. Continuam.

O bando que acordou

Animais que respiraram dor por tempo demais. Não falam, não andam em pé. São um cão que olha e entende, urubus que se organizam. Têm regra, e ninguém sabe qual.

Os Coletores

Quem limpa o que a chuva deixou: casa, túnel, hospital, poça abandonada. Não querem salvar o mundo. Querem voltar vivos. Nunca deixe uma poça sem dono.

O Abrigo

Gente que esconde e alimenta Impuros que seriam mortos. Nem todo Impuro é inocente, e o Abrigo vive dividido por causa disso.

A Corte da Violência

Dor é mérito: quem apanha e fica de pé vale mais. Duelo, arena, transmissão clandestina. Só respeitam força. A Corte é tribunal, não deusa.

A Seita da Fome

Canibais em êxtase. Comem gente e comem Impuro, e chamam de comunhão. Não sabem que quem come Impuro põe dor líquida no corpo, e que a cada banquete ficam menos gente.

E o crime que já existia: facção prisional, milícia, máfia. Nenhuma nasceu por causa da dor. Todas aprenderam a usar.

A maioria das pessoas deste mundo não discute o que a dor significa. Está só tentando viver.

DEZ LUGARES REAIS

Lugares que existem de verdade, com o que o mundo sabe deles e a coisa a mais que só existe aqui. Onde houve vítimas de verdade, a coisa a mais nunca diminui, nunca justifica, nunca vira espetáculo.

Litoral de São Paulo
Ilha da Queimada Grande

A ilha com mais cobras venenosas por metro quadrado do planeta. A Marinha proíbe desembarcar.

A coisa a mais: pescador não encosta de noite, e não é pelas cobras. Um biólogo passou uma noite lá em 2011, publicou um artigo estranho e perdeu a autorização.

Pra jogar: um barco de pesquisa voltou com um frasco a mais no inventário, e alguém quer o frasco de volta.

Ucrânia
Chernobyl

Trinta quilômetros fechados desde 1986. A floresta retomou a cidade.

A coisa a mais: 1986 foi a chuva mais concentrada da Europa desde 1945. Quem trabalha lá fala de uma coisa grande que anda pela floresta e não sai. Os guias sabem até onde podem ir.

Pra jogar: um drone militar filmou algo que não era árvore. Quem foi buscar o drone descobre que ele não caiu. Foi posto no chão, inteiro.

Brasil
A Amazônia e a lei

A lei exige preservar 80% de cada propriedade rural na Amazônia. Briga política todo ano.

A coisa a mais: relatórios que circulam entre defesa civil e exército ligam desmate a chuva de dor nas cidades vizinhas. A floresta, com milhões de bichos respirando, é o maior filtro que sobrou. Não é o argumento público da lei. É uma das razões pelas quais ela não cai.

Índia
Ilha Sentinela do Norte

Um povo que rejeita todo contato há milhares de anos. O governo proíbe se aproximar.

A coisa a mais: nada. Nunca houve chuva, poça ou Impuro ali. Quem mais quer entrar hoje não é missionário: é quem acha que um povo inteiro que nunca deixou de respirar vale alguma coisa.

Pra jogar: um barco encostou à noite e saiu com uma criança. O grupo é a equipe que a Índia não pode mandar oficialmente.

Japão
Aokigahara

A floresta no pé do Monte Fuji conhecida como lugar de suicídio. As placas na entrada salvam vidas. Os voluntários também.

A coisa a mais: Aokigahara não chove. Empoça. É a maior poça permanente do Japão, e os templos em volta existem, entre outras coisas, pra respirar o que se acumula. Parte dos voluntários sabe o que procura, e nem sempre é gente.

Durango, México
Zona do Silêncio

Deserto onde o rádio não pega e a bússola gira, dizem. A maioria das lendas é lenda.

A coisa a mais: uma que não é. Um lago secou ali há muito tempo, e o que bebeu dele por gerações ainda vive no lugar. Não são Impuros. São bichos que não deviam existir, e a "proteção da fauna" do exército mexicano é literal.

Pra jogar: uma expedição da universidade voltou com um a menos. O relatório diz "acidente". A família contrata o grupo.

Vaticano
O Arquivo

85 quilômetros de estantes. Só pesquisador credenciado entra, e alguns documentos nunca saem.

A coisa a mais: se existe uma explicação escrita pra o que a Igreja faz com a chuva, ela está ali, espalhada em mil documentos que ninguém de fora leu inteiros. Todo governo grande já tentou.

Pra jogar: um cardeal morreu e deixou uma caixa fora do arquivo. Três grupos querem a caixa. O seu é um deles.

Brasil
Círio de Nazaré e Aparecida

Dois milhões de pessoas em Belém num domingo de outubro. Doze milhões por ano em Aparecida.

A coisa a mais: as duas cidades chovem menos do que deviam. Muita gente respirando junto, com a mesma intenção, por dias. A Igreja não explica. O romeiro não pergunta.

Pra jogar: um ano a romaria foi cancelada por uma pandemia, e a cidade viveu o que acontece quando a multidão não vem. O grupo estava lá.

São Paulo
Carandiru

Em 1992 a polícia matou 111 presos ali. Hoje é um parque com biblioteca. As vítimas de 1992 são as vítimas de 1992, e nada aqui muda isso.

A coisa a mais: choveu na zona norte por dias depois do massacre, e a cidade chamou de outubro chuvoso. O caçador de carreira chama o parque de "a tampa".

Pra jogar: um morador filmou uma poça no meio da quadra, de dia, sem chuva.

Minas Gerais
Hospital Colônia de Barbacena

Manicômio que matou sessenta mil pessoas entre 1903 e 1980, a maioria sem doença nenhuma. Hoje é museu. A história real é pior que qualquer coisa que este mundo acrescenta.

A coisa a mais: setenta anos de sofrimento lento no mesmo lugar não choveram. Empoçaram, e viraram lago. É o maior lago de dor conhecido no Brasil, e é por isso que ninguém constrói na área cercada.

O Mestre inventa os dele no mesmo molde: um lugar real, o que o mundo sabe, uma coisa a mais, e uma cena que começa com o grupo chegando.

ONDE ESTAMOS

O discurso oficial é "sob controle". Os números dizem que chove mais a cada década. Por baixo, quem mudou está começando a se organizar por conta própria, em vez de servir de arma pra quem mandava. Se isso vai dar em algo, é uma das perguntas que a sua mesa responde.

O mundo sempre foi o mundo. Só havia nele uma coisa que ninguém entendia.